A Uganda está entre um dos países mais pobres do mundo, apesar de sua economia ter aumentado cerca de 7% desde 2008 – uma curva muito significativa para uma nação que foi devastada por guerras e corrupção durante décadas.

Muito embora seja considerado um país seguro, as fronteiras sofrem com um policiamento precário que viabiliza o fluxo constante de comércio ilícito, tráfico e todo o tipo de imigração. Além disso, com sua população majoritariamente cristã, com cerca de 83,9% dos habitantes, o extremismo religioso (que já matou 5 milhões de habitantes no país) continua sendo uma sombra terrível sobre a história dos ugandeses, principalmente em relação ao que aconteceu há 12 anos.

A loucura de um líder

(Fonte: CBS News/Reprodução)
(Fonte: CBS News/Reprodução)

Quando Joseph Kony fundou o grupo Exército de Resistência do Senhor (LRA), em 1987, a sua intenção era lutar contra a opressão do governo, apoiar as minorias e marginalizados do norte de Uganda. Porém, com o tempo, ele acabou se perdendo em meio aos próprios propósitos, deixando que a ideologia o controlasse.

De repente, o grupo voltou-se contra seus apoiadores, e Kony decidiu iniciar um processo de “purificação” do povo Acoli, a fim de transformar o país em uma teocracia. Ele se declarou “porta-voz de Deus” após supostamente ter recebido 13 espíritos, incluindo o fantasma de um chinês. Com todo esse misticismo, bem como um nacionalismo acoli exacerbado e pervertido, repleto de um fundamentalismo cristão apocalíptico, o LRA firmou sua base nos Dez Mandamentos e na tradição acoli local, além de se tornar uma força militar.

(Fonte: Change/Reprodução)
(Fonte: Change/Reprodução)

Foi visando esse processo que Kony se tornou um criminoso, responsável pelo sequestro de mais de 66 mil crianças nos últimos 22 anos para transformá-las em soldados projetados para matar todos que vão contra os princípios da LRA. Submetidas à lavagem cerebral, intimidação e uso pesado de drogas, as crianças também são recrutadas para serem escravas sexuais, sendo violentadas em “prol da causa LRA”. Entre 1986 e 2009, estima-se que mais de 2 milhões de pessoas foram desalojadas por causa da facção de Kony.

Em 2005, o Tribunal Penal Internacional indiciou o homem por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, porém ele não conseguiu ser capturado pelas forças da Interpol. Desde os tratados de paz de Juba em 2006, a LRA parou de operar em Uganda e se espalhou pela República Democrática do Congo (RDC), República Centro-Africana (CAR) e pelo Sudão do Sul.

A guerra

(Fonte: Los Angeles Times/Reprodução)
(Fonte: Los Angeles Times/Reprodução)

Assim que a LRA se mudou para o Congo, muitos combatentes se recusaram a oprimir o povo congolês e decidiram desertar. Eles foram abrigados ou ajudados a se esconderem da maioria dos habitantes das comunidades locais. Portanto, como forma de punição contra essas pessoas, Kony decidiu lançar uma onda de ataques contra eles.

A guerra começou em meados de setembro de 2008, com invasões às comunidades para massacrar qualquer um, fosse criança ou idoso. Houve raptos, estupros coletivos, queima de pessoas vivas, enforcamento, decapitação e qualquer outro tipo de violência grotesca. No entanto, o pior foi reservado para a noite de Natal, pois Kony sabia que haveria muitas pessoas reunidas.

(Fonte: Pulitzer Center/Reprodução)
(Fonte: Pulitzer Center/Reprodução)

Sabendo da orquestração do massacre, o exército da Uganda com o apoio dos exércitos do Congo, Sudão do Sul e República Centro-Africana, atacaram o quartel-general da LRA no Parque Nacional Garamba do Congo, próximo da fronteira com o Sudão. Contudo, em vez de matarem ou prenderem Kony, os agentes militares decidiram montar um ataque aéreo a mais de seis acampamentos dos rebeldes em meio às florestas do país.

Porém, isso serviu apenas para reavivar o ódio dos conflitos que Kony tinha se destinado a enfrentar quando estava na Uganda e seu propósito ainda era genuíno. O dia do massacre então se tornou uma verdadeira guerra civil com dupla sede de punição.

Noite infeliz

(Fonte: BBC/Reprodução)
(Fonte: BBC/Reprodução)

Ao todo, cinco aldeias do Congo foram atacadas. Os homens eram os que morriam primeiro. Só de cuecas e com os braços amarrados atrás das costas, eles eram decapitados com facões ou tinham suas cabeças golpeadas pelos rebeldes com paus até que seus crânios estilhaçassem.

Quanto às mulheres e crianças, elas tinham seus lábios cortados como um aviso para “não falarem mal dos rebeldes” e seus pescoços eram torcidos até que quebrassem, por vezes sendo violentadas e mutiladas em seguida. Seus cadáveres eram queimados ou dispensados em uma pilha de corpos para que apodrecessem.

Acredita-se que a aldeia de Faradje foi a primeira a ser invadida. Acontecia um concerto natalino organizado pela Igreja Católica quando os homens chegaram. De acordo com a Human Rights Watch, aproximadamente 150 pessoas foram mortas, sendo que mais de 160 eram crianças, e 20 adultos foram sequestrados pela facção.

(Fonte: RFI/Reprodução)
(Fonte: RFI/Reprodução)

Na manhã de 25 de dezembro, a aldeia Batande foi atingida durante o almoço de Natal, após o serviço religioso. Homens e crianças foram arrastados e mortos a aproximadamente 40 metros da igreja local. Mulheres e meninas foram levadas em pequenos grupos às florestas e estupradas antes de serem mortas. Das 80 pessoas, apenas 6 sobreviveram. Antes de irem embora, os rebeldes ainda descansaram sobre o banquete que os moradores haviam preparado e cochilaram em meio aos zumbidos das moscas que pairavam pelos cadáveres.

Em Duru, 75 pessoas foram mortas e a igreja local incendiada. Em Bandagi e Gurba, 48 e 213 vidas, respectivamente, foram tiradas sem piedade.

“Aconteceu tudo muito bem calculado”, revelou Joseph Kpayajadia, de 58 anos, um fazendeiro que se escondeu na grama e assistiu em silêncio o filho ser morto. “Eles mantiveram todos juntos em um grupo, e então levavam 5 ou 6 pessoas de cada vez ao mato para matar. Depois voltavam para pegar mais gente”.

O procurado

(Fonte: Flipboard/Reprodução)
(Fonte: Flipboard/Reprodução)

Somando a primeira onda de ataques que ocorreu em setembro de 2008 e os massacres no Natal, estima-se que mais de mil civis tenham morrido e 476 crianças sido sequestradas para a conversão. Os dados são imprecisos devido à inacessibilidade que o governo tem para entrar nas densas florestas do Congo, além do cenário completamente inseguro. No entanto, segundo declarações das pessoas que sobreviveram e fugiram, muitas aldeias foram abandonadas com pilhas de cadáveres que nunca foram contados.

No total, mais de 100 mil habitantes foram deslocados pelas autoridades congolesas. Os grupos humanitários e as próprias vítimas criticaram a intervenção do governo, alegando que os militares os colocaram na mira da guerra ainda mais.

(Fonte: Historia/Reprodução)
(Fonte: Historia/Reprodução)

Controvérsias foram erguidas quando a barbárie ganhou o mundo e Kony se pronunciou. Ele revelou que a LRA não era responsável pelos massacres em Doruma e outras aldeias, afirmando que eles foram realizados por uma unidade miliciana do exército na tentativa de difamar ainda mais os rebeldes. O exército, por sua vez, negou as acusações.

Em abril de 2017, as forças militares da Uganda e dos Estados Unidos comunicaram que a LRA não representa mais uma ameaça ao país, depois de uma força-tarefa de mais de 9 anos para tentar neutralizá-la. 

Porém, até hoje ninguém conseguiu localizar o paradeiro do líder, terrorista e lunático Joseph Kony. E, apesar do anúncio das forças militares, os ugandeses ainda temem cada véspera de Natal.

https://www.megacurioso.com.br/estilo-de-vida/117161-massacre-do-congo-um-dos-episodios-mais-doentios-da-humanidade.htm